Que tiro foi esse?
Coaching de mentirinha: o outro lado do paraíso

 

Um tremendo tiro no pé. A ação de branded content ou “merchan”, promovida pelo IBC (do Instituto Brasileiro de Coaching – IBC) na novela “O Outro Lado do Paraíso”, exibida no dia 2 de fevereiro, provocou um auê sobre o tema coaching.

O tema foi apresentado na cena em que uma advogada tenta aconselhar uma jovem que sofreu abuso sexual, com base no método que desenvolve competências. A novela  passou uma impressão de banalização e deturpação da prática, ao entrar na esfera de outras profissões –  que têm a legitimidade para tratar do assunto.

Ficou claro que o tema coaching ainda é (muito) mal compreendido pela maioria de pessoas que atuam fora dos setores de Educação e Recursos Humanos. Situações como essa acabam contribuindo para amplificar a distorção de conceitos e até mesmo criar uma imagem negativa para os profissionais de coaching, abrindo campo para aventureiros mais interessados nos aspectos comerciais do que contribuindo para o desenvolvimento das pessoas. De qualquer forma, o episódio é uma excelente oportunidade para que profissionais sérios da área se pronunciem e esclareçam o real significado do coaching.

O primeiro ponto para desfazer o nó dessa confusão é esclarecer o que um coach faz e com que temas ele trabalha. Vamos imaginar que a jovem “advogada coach”, no contexto da novela, que está começando sua carreira, tivesse dificuldades para fazer suas apresentações diante do tribunal de júri, tais como organizar seu pensamento, estruturar suas teses ou mesmo interagir com seus clientes, promotores ou juízes. Isso sim seria um típico tema de coach. Ou uma personagem da novela, que é a legítima proprietária da mina de esmeraldas, na trama em questão, assumisse a gestão da mina e tivesse desafios com sua equipe administrativa, liderança, planejamento, comunicação ou de interação com os garimpeiros. Esses seriam claramente temas de competência de um coach profissional. Em situações dessa natureza, um coach conduziria diálogos e conversas dentro de uma metodologia que levasse seu cliente a aprofundar o entendimento das suas questões e encontrar suas próprias soluções. Já a situação apresentada na novela, não é um caso de coach e, sim, uma que mereceria uma abordagem de um psicólogo ou psiquiatra devidamente habilitados.

Em resumo, podemos dizer que entre as diferenças fundamentais entre o coaching e a terapia estão: o coaching não se propõe a ter a profundidade da maioria das linhas terapêuticas reconhecidas; e os processos de coaching costumam ter objetivos bem explícitos (exemplos: aumentar a produtividade de uma equipe, mudar um estilo autoritário de liderança, desenvolver uma nova habilidade etc.) e, colocados em uma perspectiva temporal, em geral muito mais curtos se comparados aos processos típicos de uma terapia.

A situação mostrada “de mal jeito” na trama acontece muito na vida real, pois houve, desde a chegada do conceito no Brasil, uma enorme banalização do tema, com a criação de inúmeras formações que pretendem em cursos de poucos dias formar coaches com a promessa de ganhos rápidos e imediatos, deixando de lado muitas vezes o papel real do profissional. Algumas dessas entidades/instituições vivem de treinar, retreinar e de gerar necessidades constantes de atualizações dos possíveis candidatos a coach, geralmente por meio de fórmulas rápidas e “receitas de bolo”.

Para se ser um bom profissional de coaching é necessário ter algumas centenas de horas de formação e um background profissional e de vida que possibilitem atuar de maneira efetiva e ética, levando em consideração as necessidades específicas de cada cliente, sem depender de frases feitas, receitas milagrosas e abordagens padronizadas.

O coaching, hoje, passa por um fenômeno de popularização, chegando a um número maior de pessoas. Isso é bom, mas cria o desafio de “separar o joio do trigo”. Fuja de promessas como “torne-se um coach e mude sua vida”; “faça uma sessão e resolva seu problema”; “aprenda a fazer perguntas poderosas em dois dias”. Essas, geralmente, são o “joio”.

* Opinião, Meio&Mensagem, por Jaime Moggi